A origem cultural como ferramenta de cura

Uma vertente de extrema significância que precisamos considerar também no processo terapêutico de cura é a nossa origem cultural.

Pretendo ilustrar o quanto é curativo quando, sob uma perspectiva madura e saudável, olhamos para o cenário cultural de nossos antepassados para nos libertamos de dores que nos assolam, assim como acolhermos dons e talentos que nos pertencem.

O Brasil é um país conhecido pela sua diversidade cultural, podemos dizer que encontramos o mundo residindo aqui. Temos imigrantes de diversas épocas e locais. Vou escolher um cenário específico para ilustrar este pensamento:

Uma parte significativa da imigração de europeus (italianos, espanhóis, alemães, etc) por exemplo, ocorreu nas guerras mundiais (1ºGM – 1914/1918 e 2ºGM – 1939/1945). Se hoje você tem por volta de 40 anos de idade e seus bisavós imigraram para o Brasil no início do século eu consideraria revisitar este cenário para tentar compreender o que essas pessoas estavam vivendo,  o estado emocional que elas desenvolveram e algumas ações que tomaram na época, e como isso reverberou de geração para geração, como dores emocionais, crenças negativas, doenças genéticas, assim como dons, talentos e crenças positivas.

Voltando ao exemplo, vamos imaginar que hoje a pessoa que tem bisavós que imigraram para o Brasil fugindo da guerra sinta-se deslocada com o mundo, e numa busca frenética por propósito, pula de emprego em emprego, ou de casamento em casamento. Nada se torna estável, o medo e a insegurança a rodeia sem o menor sentido, e talvez até chegue a ser diagnosticada com crise de ansiedade e depressão.  Como, através deste olhar de reverência aos nossos antepassados, podemos encontrar um caminho de cura?

Primeiro precisamos olhar sob a ótica dos personagens envolvidos diretamente nessa imigração. O que eles poderiam estar sentindo? De onde vinham? O que estava acontecendo em sua terra que os mobilizou a sair em fuga? Para onde foram? Como foram recebidos? Na época em que isso ocorreu, o que era permitido e o que era banido?

Talvez um avô disciplinador estivesse apenas lutando para manter a família unida com alguma segurança. Algo que talvez ele tenha vivenciado na relação com os pais, que acabara de chegar numa nova terra e precisavam prosperar para sobreviver.
Talvez um bisavô que antes fora um grande engenheiro na Itália e perdera seus pais e irmão na guerra, para sobreviver no Brasil trabalhou no campo para garantir o sustento de sua jovem família.
Talvez uma bisavó italiana, ao chegar ao Brasil, tenha sido vítima de preconceito no vilarejo do interior de MG, e tenha desenvolvido uma baixa auto estima, que vem assolando as gerações de mulheres desta família.

Quando conseguimos olhar pelos olhos de nossos antepassados conseguimos construir uma linha do tempo que agora toma um sentido mais profundo, com menos julgamento sobre suas ações. O amor que lhe foi dado foi o amor possível dentro das condições que aquele tempo e espaço permitiu. Através deste movimento estamos quebrando o vínculo de dor que por gerações tem se expressado em seus descendente de forma repetida se manifestando cada vez mais agressivamente. Basta este olhar contemplativo e empático à história de nossos pais, avós bisavós para que o fluxo de amor retorne a normalidade.

Diante desta nova perspectiva em que reverenciamos e resignificamos nossa história podemos então contemplar a nossa origem cultural.
Compreender que nossa terra também conta uma história sobre nós. E que tudo que nela vive, habita nosso ser desde a guerra a reconstrução.
A natureza selvagem daquele país também existe em nós, desde o deserto até as mais belas florestas.
Contudo, o que precisamos fazer a seguir é tomar de posse esse legado da terra, integrar a nossa existência e ao nosso propósito. Deixar que se manifeste nossos dons e emanar ao mundo essa semente.
Se existe um luto em relação a separação da terra, volte e agradeça!
Namastê!

Nota da autora:
Obviamente o trabalho psicoterapêutico é muito mais complexo do que a aplicação de alguns exercícios, pois cada biografia e cada dor necessita de um cuidado e uma condução personalizada. Contudo a expectativa deste texto é contribuir para um olhar mais amplo sobre a natureza humana que sofre a interferência de diversos campos psico-afetivo, emocional, genético, cultural, energético. E quando expandimos nossa consciência e contemplamos todos estes fatores estamos nos integrando cada vez mais, e consequentemente nos tornando seres mais saudáveis conosco e com o mundo.

 

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