Estamos de fato nos empoderando daquilo que é nosso?


Empoderamento é uma palavra poderosa, usada de diversas formas, em diferentes contextos, com uma mensagem forte que significa: Tomar as rédeas da situação, assumir o controle, assumir o poder que lhe cabe, responsabilizar-se por aquilo que é teu!

Diante de todo e qualquer conflito, dor e sofrimento, empoderar-se é a única e a real saída para a resolução da angústia.
Acontece que o “Mundo” nos imprime algumas normas relativas ao relacionamento humano, como um método que tange a organização dos conflitos, formulando respostas para cada situação de dor ou sofrimento, e até de prazer e felicidade. Como exemplo:
Um indivíduo que não recebeu apoio e suporte afetivo dos pais por toda infância tende a estabelecer relacionamentos afetivos mais voláteis do que uma pessoa que recebeu este apoio ao longo da infância.
A afirmação acima descreve o raciocínio que o “Mundo” estabelece para as relações humanas e que absorvemos ao longo da vida em nossa biografia, tornando essa premissa a ferida mais profunda de nossa história, que origina todo e qualquer conflito posterior.
Voltando ao exemplo acima: Essa pessoa, hoje com 32 anos de idade, enfrenta uma crise no casamento, logo atribuída a este “negligenciamento afetivo dos pais”, e busca um espaço psicoterapêutico para curar-se desta antiga ferida, a fim de solucionar o atual problema.
Este momento é crucial! Pois acreditamos que estamos nos EMPODERANDO das nossas dores, e que ao assumir este controle a cura se solidifica.
O meu maior questionamento diante de situações como esta é: Alguém indagou ao “Mundo” a veracidade desta história? Quem nos contou isso? Quais as minhas reais lembranças sobre este período, as lembranças sensoriais?
Nós aprendemos que o “Mundo” não pode ser questionado. E que empoderar-se vale somente para aquilo que intimamente conhecemos, ou que nos foi contado.
Como a cura virá desta forma? Diante de um suposto discurso enganoso, de um suposto fato ocorrido? Diante de lembranças sensoriais tão distorcidas, que podem inclusive nem serem as nossas reais lembranças?
No exemplo acima, poderíamos descobrir que a “negligência” afetiva não foi direcionada ao filho, e quem de fato não sentia-se amado ou negligenciado na relação, era a mãe. Neste caso, se a mãe não sentia-se amada pelo pai, e o pai amava o filho, porque deveríamos carregar o peso de um negligenciamento afetivo parental? Porque curar-se de algo que não existiu? 
O espaço psicoterapêutico deve servir como um escritório de detetives, como ilustra a autora Laura Gutman. Neste trabalho de “detetives” devemos investigar verdadeiramente o objetivo dos discursos, das histórias, das lembranças que o mundo nos imprimiu. E caminhar a libertação destes discursos, para conhecer a verdade.
Empoderar-se é preciso, mas atenção ao que está tomando em suas mãos. Essa dor pode não ser sua!
Texto: Thais de Castro

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